O sistema de
ignição é uma das partes fundamentais do motor de qualquer carro. É através dele que
se inicia a combustão da mistura combustível / ar nas camâras de combustão.
Básicamente, a bateria primeiro, e depois o alternador dão energia à bobine, esta multiplica a energia eléctrica para
atingir a voltagem necessária para produzir uma descarga suficiente para inflamar a
mistura, alimenta o distribuidor, que como o
nome indica distribui a energia pelas quatro velas,
seguindo uma ordem específica e um tempo de resposta determinado pelas árvores de cames.
A energia chega às velas através de cabos
com alta capacidade de voltagem.
Neste sistema há várias coisas que
podem ser melhoradas, se tivermos como objectivo apenas melhorar a performance. Há que
ter em conta o seguinte: o sistema de ignição de origem de qualquer carro funciona
eficazmente, e muitas vezes nem vale a pena modificar, mas normalmente existem certas
características que servem para maior protecção e para eliminar interferências com
componentes eléctricos (como o sistema de som
) que causam uma maior resistência à
conductividade eléctrica dos componentes.
Outra nota importante é que qualquer
evolução no sistema de ignição se vai reflectir em duas frentes: A redução dos consumos, e o aumento das performances, tudo porque é
optimizada a combustão de forma a queimar todo o combustível que entra na câmara de
combustão, evitando o desperdício e aumentando o poder da explosão.
Assim sendo, há duas formas de
melhorar as performances do sistema de ignição: uma é a de eliminar as resistências à conductividade
eléctrica, a outra é aumentar a voltagem
disponível para a descarga que vai inflamar a mistura. Tudo isto tem, no entanto, de
ser feito em conjunto para que possa resultar plenamente.
Os principais passos para eliminar a
resistência à conductividade eléctrica passam pela substituíção de alguns
componentes normalmente mais restritivos

VELAS
Em primeiro lugar as velas. As velas
são um dos componentes que geram maior controvérsia e onde existe demasiado marketing e
pouca verdade
é uma área onde as modas contam muito e infelizmente a grande
maioria das pessoas não consegue discernir a realidade. O formato da cabeça da vela
pouca ou nenhuma influência tem no seu desempenho, em termos de performances. As velas
com mais do que um pólo apenas são melhores porque divide o número de descargas pelos
vários pólos e isso faz aumentar o tempo de vida útil da vela, mas a performance não
melhora por causa disso. As velas que rompem com o design tradicional da cabeça (com um
ou mais pólos sobrepostos ao eléctrodo), não trazem qualquer benefício em termos de
performance, pelo menos que se note no mundo real (como por exemplo as velas sem pólos
sobrepostos).
A grande diferença entre os vários
tipos de velas é o material com que é feito o eléctrodo, a qualidade de construção, e
a presença (ou não) de componentes restritivos para isolar interferências. Os materiais
empregues no eléctrodo podem ser o cobre, platina, ouro, prata, nickel e o aço. Para os
classificar deve usar-se uma regra simples (quando a performance é a prioridade, claro),
o metal com maior nível de conductividade térmica e eléctrica é o melhor para utilizar
no eléctrodo, porque permite fazer uma descarga maior, mais rápida, e mais intensa.
Neste particular os números são claros, a prata tem os valores mais altos, seguida pelo
cobre, depois o ouro e por fim a platina (estando o nickel e o aço no fundo da
tabela...).
Properties of Materials Used
for Spark Plug Electrodes |
| Material |
Thermal
Conductivity
W/(m·K) |
Electrical
Conductivity
MS/m |
| Silver |
407 |
66 |
| Copper |
384 |
57 |
| Gold |
310 |
45 |
| Platinum |
70 |
10 |
| Nickel |
59 |
10 |
| Steel |
58 |
7 |
W/(m·K) = Energy per meter and Kelvin
(1kcal/(m·h·grd) = 1.163 W/(m·K)
MS/m = Mega Siemens per meter (1S m/mm2 = 1MS/m), (1S = 1/3) |
O que impressiona mais, é o facto
da platina ser referida no mundo do Tuning nacional como se fosse o melhor material que
pode ser empregue em velas de rendimento, quando a realidade é exactamente o oposto, até
as tradicionais velas de cobre suplantam a platina (e por muito) em capacidade térmica /
eléctrica! A platina é realmente excelente no que respeita a durabilidade e estabilidade
da folga entre o pólo e o eléctrodo, mas em termos de performance é dos piores
materiais, produzindo descargas eléctricas muito fracas.
Por outro lado, podemos observar que o
material que tem melhores qualidades para as velas é a prata, e ainda tem o
bónus de ter quase tanta resistência e durabilidade como a platina, e a
prová-lo está o facto das velas de prata serem o equipamento de origem de grande parte
dos carros de alta performance como alguns Porsche, BMW e Volkswagen, entre outros.
Aliás, as velas de prata são até recomendadas para carros que funcionam a GPL, que por
terem uma inflamação do combustível mais difícil precisam de velas mais eficazes na
descarga
. Está tudo dito!
De qualquer forma, a clássica vela de
cobre continua a ser do melhor que há em termos de performance, tendo apenas a
desvantagem de ser necessário comprar velas novas regularmente para manter as suas
excelentes propriedades.
Quanto à qualidade dos componentes, a
única recomendação possível é que se abstenham de comprar velas de marcas duvidosas,
que prometem mundos e fundos mas que na realidade são mais empresas de marketing do que
de componentes eléctricos
O que parece ser razoável é apostar em marcas firmadas
como a Nippon Denso, a NGK, a BOSCH ou a BERU. A razão é simples, cada vez mais os
fabricantes de automóveis apostam no maior intervalo entre revisões dos motores como
forma de aliciar os clientes, e se eles usam maioritáriamente estas marcas é por alguma
razão
E é também por isso que muitos carros usam velas de platina, apenas para
durar mais tempo.

CABOS
DE VELAS
Este é outro dos componentes do
sistema de ignição que pode ter factores restritivos, para eliminar interferências com
outros componentes eléctricos como o rádio. A maior parte dos cabos modernos que se
podem encontrar nos carros comuns já são feitos em silicone, sendo que este não é o
aspecto de maior importância por já ser normalmente utilizado. A grande alteração que
se pode fazer reside no tipo de cabo que é utilizado, ou seja, o metal empregue e a forma
do cabo (enrolado curto / enrolado longo / direito
etc).
Neste campo existe maior verdade no
mercado, e pode mesmo dizer-se que a maior parte dos cabos que se vendem são realmente
bons e cumprem bem a missão de transportar mais e melhor energia. São de salientar os
cabos da Nology e da Magnecore, que apresentam os melhores resultados, mas outros como os
da Splitfire, de preparadores especializados de marcas automóveis (Prodrive / TRD / Mugen
etc..), ou até mesmo da Bosch e da Lucas são bastante bons e na maior parte das vezes
são até mais baratos do que os cabos de origem.

DISTRIBUIDOR
Quanto ao distribuidor, apenas uma
recomendação, comprar uma capa nova de 5 em 5 anos, visto que esta perde muitas das suas
propriedades com o passar dos anos. Se tiver um carro antigo não hesite em comprar uma.
Há também outro aspecto importante
no que diz respeito ao distribuidor. Este permite regular o timing em que é
feita a descarga eléctrica, o chamado avanço da
ignição. Fazer isto permite escolher se a descarga é efectuada antes, durante ou
depois da mistura ter sido completamente injectada na câmara de combustão. No entanto,
apesar de ser possível ganhar alguma performance em certos regimes do funcionamento do
motor, é recomendável que se mantenha o avanço de origem, isto porque o ajuste tem
muitas nuances quanto à fiabilidade e suavidade de funcionamento, e se não fôr feito
por especialistas pode dar origem a piores consumos e grandes poços de
potência que tornam o funcionamento do motor irregular. Mesmo assim, quando feito por
especialistas que realmente sabem o que estão a fazer, e desejam harmonizar a ignição
com os maiores fluxos de ar e combustível provocados por outras modificações, este é
um passo muito importante na evolução do sistema de ignição. O problema é que não
há em Portugal assim tantos especialistas em quem se possa confiar plenamente...
Existem alguns sistemas de ignição
completos, de marcas como a Jacobs, a Crane ou a Nology, que permitem regular o avanço da
ignição electrónicamente, através de um micro-processador. Estes sistemas, embora
pouco comuns no nosso país, incluem todos os componentes necessários
(alternador,bobine,distribuidor,cabos e velas), que são controlados electrónicamente,
muitas vezes substituindo a função do ECU (chip) do carro. Sendo possível ajustar o
avanço por micro-processador torna-se muito
mais fácil testar vários parâmetros de avanço, verificar os resultados, e implementar
rápidamente o que melhor se adapta às características particulares do motor que tenha
sofrido modificações.
Quanto ao aumento da voltagem da
descarga, a outra forma de evoluir o sistema de ignição, o principal componente é a
bobine.

BOBINE
Este é o componente que amplifica a
descarga eléctrica para que esta seja suficiente para inflamar a mistura. Uma bobine
normal funciona com mais ou menos 18.000 Volts. No entanto é possível comprar uma bobine
que atinja descargas de 45.000 Volts. Isto
pode fazer a diferença, principalmente se já tiver adquirido umas boas velas e cabos,
que apenas podem maximizar o seu potencial se realmente houver mais energia para
descarregar
lógico não é? Existem várias marcas de bobines de alta
voltagem, como a Nology, a Accel e outras no mercado nacional e internacional.

CONSIDERAÇÕES
Há dois aspectos que se revestem de
muita importância no que toca à evolução do sistema de ignição. Suponhamos que
comprou umas velas, uns cabos e uma bobine de alto rendimento. Muito bem, vai no bom
caminho
. Mas o que realmente se passa na câmara de combustão? Será o suficiente?
A realidade é que para melhorar a
combustão não basta mais e melhor energia. É preciso também melhorar as condições em
que essa energia surge e funciona. É aqui que entra a questão das folgas das velas (entre o pólo e o eléctrodo).
Teóricamente, quanto maior for a folga, maior será o raio de acção da descarga, e logo
será também maior a eficácia da combustão, principalmente se tiver comprado todos os
outros componentes e desejar maximizar o efeito. No entanto a amplitude da folga tem
alguns limites, e se fôr exagerada pode levar a falhas de ignição e a efeitos de
detonação. O que se deve fazer é progressivamente aumentar a folga enquanto não surgem
maus resultados.
Outra questão prende-se com a
combustão em si
isto é, se temos mais energia para efectuar a inflamação, temos
de ter também mais combustível para queimar, senão de nada serve optimizar a ignição
( a não ser para tornar o funcionamento mais suave estável e eficaz, mas sem
grandes ganhos de potência). Para resolver este problema recomenda-se o uso de uma
válvula de pressão de gasolina regulável, para manter a pressão constante e alta, ou
então, numa onda mais radical, aumentar a capacidade da bomba injectora.
Isto, claro, se quiser realmente
obter ganhos de potência significativos. Se não efectuar estes dois passos (folgas /
mais gasolina) ficará também a ganhar, mas apenas no que toca a eficácia dentro dos
mesmos valores permitidos físicamente, suavidade e estabilidade. O que até nem é nada
mau
. |